SR-71 Blackbird: O cockpit que “assava” o piloto

Nada na Aviação Militar é desenvolvida sem um propósito. Desde o mais simples material, mecanismo ou sistema, até a mais moderna aeronave sempre é elaborada para um fim. E nas guerras, quem possui mais tecnologia sempre está um passo à frente. E foi por um motivo muito justo e ambicioso, que um ícone da aviação militar norte-americana foi desenvolvido: o SR-71 “Blackbird”.  

Após um míssil disparado de sistemas antiaéreos soviéticos abater um avião espião U-2 nas proximidades de Sverdlovsk na antiga URSS, em 1960, que o governo americano notou que precisava de um avião de reconhecimento que pudesse voar ainda mais alto e “fugir” de qualquer míssil que fosse lançado contra ele.

A empresa Lockheed Corporation, por meio de sua divisão de desenvolvimento de projetos ultrassecreta, conhecida como Skunk Works, e pelo seu engenheiro aeroespacial “Kelly” Johnson. Foram desenvolvidos incialmente o A-12, destinado à CIA.

Porém, por ter superado grandemente as expectativas, a USAF decidiu dar prosseguimento ao programa com o intuito de adquirir aeronaves para aquele ramo.

SR-71 Blackbird

O Blackbird possuía características internas e externas únicas

O Blackbird possuía características internas e externas únicas, com um visual que mais lembrava uma nave de filmes de ficção cientifica. O material predominante era o titânio, pois precisava suportar as altíssimas temperaturas geradas pelo atrito do ar.

Alcançava inacreditáveis 1.900kt (3.540km/h), chegando aos 85 mil pés de altitude, com boatos de que chegou a operar em ate incríveis 100 mil pés. Seu perfil desconhecido ate então, tornou difícil sua detecção nos radares inimigos.

Até mesmo a tinta preta usada para pintar sua fuselagem possuía materiais metálicos afim de absorver ondas desses radares, diminuindo assim sua assinatura e percepção. Um sistema complexo de desenvolvimento de alta tecnologia foi criada exclusivamente para fornecer as peças sofisticadas para o SR-71.

O combustível, por exemplo, era um “coquetel” secreto chamado JP-7, de um custo por galão mais caro que whiskies 18 anos, sendo utilizado apenas pelo Blackbird. Um seleto grupo de pilotos tiveram a honra de poderem voar o Blackbird. 

Um destes pilotos, o coronel Richard Graham, autor de vários livros sobre a aeronave, relata algumas peculiaridades sobre as características deste incrível espião.

O combustível do SR-71 poderia apagar cigarros

“Quando eles estavam construindo o avião, o designer Kelly percebeu que as temperaturas externas iriam superar 300ºC. Todos os bordos de ataque alcançariam 300ºC e o resto da aeronave em torno 200ºC. Consequentemente, os 36.287,42kg de combustível transportados nos seis tanques, se aqueceriam a 190ºC devido à temperatura da fuselagem, e assim as chances de uma explosão ou um incêndio seriam muito elevadas.

Kelly teve que desenvolver um combustível especial com um alto ponto de fulgor, e é aí que ele veio com JP-7. Este combustível tem um ponto de inflamação tão alto, que eu vi um chefe de equipe jogar uma ponta de cigarro acesa no combustível e simplesmente se apagar como se fosse jogado na água.”

A União Soviética colaborou na construção dos Blackbird

“O avião é de 92% de titânio por dentro e por fora. Quando eles estavam construindo o avião, nos Estados Unidos não haviam os suprimentos do minério – um minério chamado Rutilo. É um material muito rochoso e só é encontrado em poucas regiões do mundo.

O principal fornecedor do minério foi a URSS. Trabalhando através de países do Terceiro Mundo em operações falsas, o EUA foi capaz de obter o minério Rutilo enviando-o para construir o SR-71.”

A velocidade máxima foi limitada pela temperatura do motor

“O limite de velocidade para o avião, ironicamente, não têm nada a ver com a sua estrutura, mas tem a ver com seus motores. Na parte frontal das entradas de ar dos motores haviam tubos termostáticos, que atuavam quando a temperatura estava em torno de 427ºC (800F), que é maior temperatura que os dois motores Pratt & Whitney podiam suportar. Qualquer coisa além disso já não era garantido pelo fabricante, e os motores poderiam ser deslocados ou poderiam lançar lâminas dos discos de turbina”.

Turbina Blackbird

O avião foi projetado para vazar combustível

“Os tanques de combustível são praticamente a pele do avião. Se você raspar a fuselagem, o tanque de combustível estará logo abaixo.

Não há tanques de combustível internos por causa da expansão e os ciclos de contração devido ao aquecimento e resfriamento da aeronave em velocidades diferentes. A manutenção após um voo, verificava os vazamentos que faziam poças de combustível embaixo do avião, e calculavam medindo em gotas por minuto para verificar se os vazamentos estavam dentro das tolerâncias. Em outras palavras, após um voo, o avião literalmente sangrava pelos poros.”

Blackbird´s encerraram a Guerra de Yom Kippur

“Um tempo de missão médio foi, provavelmente, de três horas e meia a quatro horas, e uma missão longa de oito ou mais horas. Através de toda a história do programa de 22 anos, houveram 13 missões que foram mais de 11 horas, mas elas eram muito raras.

Doze dessas missões foram levadas para fora da costa leste dos Estados Unidos durante a Guerra do Yom Kippur em 1973. Fomos para o Oriente Médio e retornamos para os EUA, e o produto da missão foi entregue diretamente ao presidente.

Ele queria saber se os árabes e os israelenses realmente voltaram para a linha de frente como eles disseram que fizeram. Nós fomos lá, tiramos as fotos, voltamos e mostramos as provas fotográficas de que ambos estavam mentindo sobre onde suas forças militares estavam.

O presidente chamou os dois países e disse: ‘Eu tenho provas de que vocês não estão onde deveriam estar.‘ Isso é o que acabou com a Guerra do Yom Kippur.”

O Parabrisas agia como um forno improvisado

“Durante as missões, nós tomávamos bebidas de nossa escolha. Ela vinha em um frasco como você vê com maratonistas e ciclistas, e o tubo passava no lado direito do capacete até próximo da boca. Você apertava o tubo de pressão, e pelo bocal vinha água, gatorade, chá gelado, ou qualquer bebida de sua escolha.

Era desta forma que nos hidratávamos. Para nos alimentarmos durante o voo, pegávamos o tubo de comida que vinham em gigantescos dispensadores de creme dental. Um dos meus favoritos para o jantar era macarrão com queijo, carne e molho, pudim de caramelo e pudim de baunilha de sobremesa.

Funcionava no mesmo princípio para líquidos. Você apertava um tubo de alimentação em cada recipiente, empurrava através da porta de alimentação e espremia a comida fria em sua boca, o que dificultava a passagem dela pelo tubo, e era desagradável para ser consumida.”

“Eu descobri um pequeno truque para fazer. Se eu pegasse esse tubo e colocasse contra a minha janela no para-brisas dianteiro – que no exterior é 328ºC a Mach 3.2, e no interior, variando entre 149ºC e 177ºC – e deixando ali por cerca de um minuto e meio, em ambos os lados, ele descia muito melhor quente do que frio. Foi no improviso nas alturas que eu fiz o meu forno em voo”.

Cockpit Blackbird
Cockpit do Blackbird

Fatos interessantes

Para uma missão, o SR-71 decolava com combustível vazando, devido a dilatação das juntas dos tanques de combustíveis serem efetivamente vedadas somente em voo. Logo após a decolagem, era reabastecido em voo para prosseguir para as missões.

Abastecimento aérea blackbird

Sua tripulação era constituída de 02 tripulantes, um piloto e um oficial de sistemas de reconhecimento. Estes tripulantes usavam trajes parecidos com os dos astronautas, que suportavam grandes temperaturas do cockpit.

Traje para o blackbird

Possuía 32,74m de comprimento, 16,94m de envergadura, 5,64m de altura. Seu peso vazio era de 30.600kg (67.500lb) e carregado possuía 69 toneladas, com peso Maximo de decolagem de 78 toneladas. Seu alcance bélico era de 5.400km, e de 5.025km com peso Maximo de decolagem.

Era equipado com dois motores tipo turbojato de pos combustão e geometria variável Pratt & Whitney J58-1, com 15.422kgf de empuxo (151.000N) cada um. Para que se pudesse acionar estes motores, era necessária a utilização de uma fonte externa de ar de 650hp, convertido de um motor V8 de Buick.

Com a utilização de satélites para a espionagem, o Blackbird se tornando obsoleto, com custos operacionais cada vez mais elevados. Foi retirado de operação pela USAF em 1990, sendo dois utilizados ate 1999 pela NASA, para estudos. Após 1999, todos os SR-71 que sobraram foram levados para museus nos EUA e Reino Unido.

Blackbird apoio NASA

O SR-71 não possuía nenhum tipo de armamento, portando apenas sistemas de navegação e modernas câmeras de alta definição para a coleta de fotos de territórios inimigos, numa época que ainda não havia satélites espiões. Mesmo assim, nunca foi abatido, sabendo=se que cerca de 100 misseis ar-terra SAM foram disparados contra eles, sem nenhum sucesso. Nenhum caça jamais conseguiu interceptar o Blackbird, sendo que 12 unidades foram perdidas, porém em acidentes.

Piloto de um blackbird

Com tanta tecnologia empregada, há mais de 50 anos como foi o projeto do SR-71 e, somente décadas após que foi “descoberto”, nos leva a pensar: o que será que nos dias de hoje as grandes potências estão desenvolvendo na área de aviação militar? Quis tecnologias estão em desenvolvimento as quis nem imaginamos? Se na década de 1960 ja havia uma aeronave que alcançava operacionalmente Mach 3.5, fica quase impossível imaginar o que está sendo gerado hoje. E, somente daqui a algumas décadas saberemos o que hoje está nas seções ultrassecretas e hangares subterrâneos ao redor do mundo. 

Aposentado Blackbird

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